Linha de produção com uma etapa estreita acumulando peças na frente
Anúncio · Publicidade

O que é a teoria das restrições

A teoria das restrições (TOC, da sigla em inglês theory of constraints) é uma filosofia de gestão e um conjunto de ferramentas criados pelo físico israelense Eliyahu Goldratt. Ela ficou conhecida no livro A Meta, de 1984, escrito com Jeff Cox. A ideia central é simples: todo sistema tem pelo menos uma restrição que limita o seu resultado, e só melhorar a restrição melhora o sistema.

Em uma fábrica, a restrição costuma ser o gargalo: a etapa com menor capacidade. Uma linha só entrega o que a sua etapa mais lenta consegue entregar. Por isso, uma hora perdida no gargalo é uma hora perdida para a fábrica inteira, enquanto uma hora ganha fora dele quase sempre só vira estoque.

A TOC nasceu na manufatura, mas vale para qualquer fluxo de trabalho: uma oficina, uma obra, um departamento de engenharia ou um atendimento. Onde há uma sequência de etapas, há uma etapa que limita o ritmo. Quem enxerga qual é ela deixa de espalhar esforço e passa a concentrar as melhorias onde elas realmente aumentam o resultado.

Gargalo e restrição: qual a diferença

Na linguagem do chão de fábrica, gargalo e restrição aparecem como sinônimos. Para ser preciso, o gargalo é a restrição física de capacidade: o recurso cuja capacidade é menor que a demanda. Mas a restrição pode estar em outro lugar.

Tipo de restriçãoOnde apareceExemplo
Física (gargalo)Máquina, posto ou equipe com menor capacidadeUma solda de 35 peças por hora entre etapas mais rápidas
De mercadoA demanda é menor que a capacidade da fábricaA linha poderia fazer mais, mas faltam pedidos
De políticaUma regra, norma ou hábito que limita o fluxoLote mínimo grande, aprovação lenta, pausa que para a máquina inteira
De fornecimentoMaterial que chega tarde ou incompletoChapa entregue em lotes semanais

Essa classificação é uma organização prática, e não uma regra única entre os autores. O que importa é saber qual é a restrição hoje, porque é nela que cada esforço rende mais.

Exemplo resolvido: a linha de quatro etapas

Considere uma linha ilustrativa, com turno de 8 horas, que processa a mesma peça em quatro etapas. Os números são inventados para o exemplo.

EtapaCapacidade (peças por hora)Capacidade em 8 h (peças)
Corte60480
Solda35280
Pintura50400
Montagem45360

A solda tem a menor capacidade, 35 peças por hora, e é o gargalo. Além disso, ela trabalha apenas 7 das 8 horas, porque perde 1 hora com almoço, troca de ferramenta e espera por material. A produção real da linha é então 35 × 7 = 245 peças por dia.

Se o corte trabalhar o turno todo a 60 peças por hora, ele faz 480 peças. A solda consome 245. Sobram 480 − 245 = 235 peças por dia de estoque em processo na frente do gargalo. Esse estoque não vira dinheiro: só ocupa espaço, esconde problemas e alonga o lead time.

Repare no que o exemplo ensina. O corte tem a maior capacidade da linha, 60 peças por hora, e mesmo assim seria um erro investir nele. A pintura, com 50, também não limita nada hoje. Qualquer melhoria nessas duas etapas deixaria o fluxo igual e o estoque maior. A atenção deve ir para a solda.

Como identificar o gargalo

Nenhum sinal sozinho é prova. Combine pelo menos dois e confirme com dados de capacidade.

SinalComo verificar
Fila na frente da etapaConte as peças esperando em cada posto durante alguns dias
Ciclo acima do taktCompare o tempo de ciclo com o takt time; a etapa que não acompanha a demanda é candidata
Quem nunca paraA etapa que trabalha o tempo todo enquanto as seguintes esperam
Menor capacidadeCalcule a capacidade de cada etapa, como no guia de capacidade produtiva
Mapa do fluxoO mapeamento do fluxo de valor mostra ciclo e estoque de cada etapa lado a lado

No exemplo, a fila de peças na frente da solda e a menor capacidade apontam para o mesmo lugar.

Os cinco passos de focalização

Goldratt propôs um ciclo de cinco passos. Veja cada um aplicado ao exemplo.

  1. Identificar a restrição. A solda, com 35 peças por hora.
  2. Explorar a restrição. Tire o máximo do que já existe, sem investir. Escalone o almoço para a solda não parar, reduza o setup com SMED, garanta material na hora e mantenha a máquina disponível com TPM. Recuperando a hora perdida, a solda passa a trabalhar 8 horas: 35 × 8 = 280 peças por dia, ou 35 a mais (+14,3%).
  3. Subordinar tudo à restrição. As outras etapas trabalham no ritmo da solda. O corte deixa de fazer 480 peças e produz cerca de 280, o que elimina o estoque que se acumulava.
  4. Elevar a restrição. Se ainda não basta, invista em capacidade. Uma segunda estação leva a solda a 50 peças por hora. A restrição então se desloca para a montagem, de 45 peças por hora: 45 × 8 = 360 peças por dia.
  5. Voltar ao passo 1. A montagem é a nova restrição, e o ciclo recomeça.

O resultado do exemplo: de 245 para 280 só com exploração, e para 360 com a elevação. Ao todo são 115 peças a mais por dia, ou 46,9%.

Tambor, pulmão e corda

O tambor-pulmão-corda (DBR, de drum-buffer-rope) é o método de programação da TOC para fazer o fluxo seguir a restrição.

A inspeção deve ficar antes da restrição, para que ela não gaste tempo precioso em peças que serão refugadas.

Anúncio · Publicidade

As três medidas da TOC

A TOC propõe julgar as decisões por três medidas globais, e não por eficiência de cada área.

MedidaDefiniçãoPergunta que responde
Ganho (throughput)Ritmo com que o sistema gera dinheiro por meio das vendasQuanto entra?
InventárioDinheiro investido em itens que a empresa pretende venderQuanto está parado?
Despesa operacionalDinheiro gasto para transformar inventário em ganhoQuanto custa operar?

Uma melhoria só vale se aumenta o ganho, reduz o inventário ou reduz a despesa operacional. Aumentar a eficiência de uma máquina que não é gargalo não faz nenhuma das três coisas.

TOC, Lean e Six Sigma

Segundo o Lean Enterprise Institute, a TOC foca em remover ou gerenciar restrições para aumentar a saída, enquanto o Lean foca em identificar e eliminar desperdício no fluxo de valor. Os dois enfatizam o sistema inteiro, e não partes isoladas.

AspectoTOCLeanSix Sigma
FocoA restrição do sistemaO desperdício no fluxoA variabilidade do processo
Pergunta-chaveO que limita o resultado?O que não agrega valor?Por que o resultado varia?
Quando usar primeiroPara escolher onde atuarPara atuar no fluxo todoPara estabilizar um processo

Na prática, combinam bem: a TOC diz onde atacar primeiro, e as ferramentas Lean e o OEE do gargalo dizem como e quanto melhorou. Medir o OEE da máquina restritiva costuma ser o melhor primeiro indicador.

Uma regra útil para a rotina: use a TOC para decidir onde melhorar, o Lean para decidir o que eliminar no fluxo, e o controle estatístico para manter o processo estável depois. Uma ferramenta não substitui a outra.

Erros comuns

Próximo passo

Escolha uma linha e faça este roteiro de uma semana.

  1. Calcule a capacidade de cada etapa e confirme o gargalo com a fila e o ciclo.
  2. Meça as horas que o gargalo realmente trabalha e liste as paradas evitáveis.
  3. Ataque a maior parada com uma ação simples, sem investimento.
  4. Reduza a liberação de material para o ritmo do gargalo.
  5. Reavalie em uma semana: a restrição mudou de lugar?

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre gargalo e restrição?

Gargalo é a restrição física de capacidade. A restrição pode ser também de mercado, de política ou de fornecimento.

Quais são os 5 passos da teoria das restrições?

Identificar, explorar, subordinar, elevar a restrição e voltar ao passo 1 quando ela mudar de lugar.

O que é tambor-pulmão-corda?

É o método de programação da TOC: o tambor dá o ritmo da restrição, o pulmão a protege e a corda amarra a liberação de material a esse ritmo.

Como identificar o gargalo de uma linha?

Procure a fila de peças na frente da etapa, o ciclo acima do takt e a menor capacidade calculada.

TOC e Lean são concorrentes?

Não. A TOC indica onde agir primeiro, e o Lean oferece as ferramentas para agir.

Quem criou a teoria das restrições?

Eliyahu Goldratt, que a popularizou no livro A Meta, de 1984, escrito com Jeff Cox.

Por que não adianta melhorar uma etapa que não é gargalo?

Porque a saída da linha é limitada pela restrição. O ganho fora dela vira estoque em processo.

Fontes

  1. Lean Enterprise Institute. Theory of Constraints. Lean Lexicon. https://www.lean.org/lexicon-terms/theory-of-constraints/
  2. GOLDRATT, E. M.; COX, J. A Meta. São Paulo: Nobel, 1984 (original em inglês: The Goal).
  3. GOLDRATT, E. M. What Is This Thing Called Theory of Constraints and How Should It Be Implemented? Great Barrington: North River Press, 1990.

Quer localizar o gargalo do seu processo?

Leia o guia completo de Mapeamento do Fluxo de Valor e veja ciclo e estoque de cada etapa lado a lado.

Ler artigo
Anúncio · Publicidade
Foto de Vagner Soares

Sobre o autor

Vagner Soares

Especialista em Lean Manufacturing e Gestão Comportamental

Mais de 20 anos de indústria automotiva e metalmecânica (GM e Dana), especialista em Lean Manufacturing desde 2006. Instrutor e mentor do SENAI no programa Brasil Mais Produtivo, com consultorias, treinamentos e auditorias em mais de 50 empresas, unindo qualidade, produtividade e desenvolvimento de pessoas.