Ícones dos desperdícios do Lean: estoque, espera, transporte, superprodução, movimentação e defeitos
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O que são os desperdícios do Lean

Desperdício, ou muda em japonês, é toda atividade que consome tempo, material, espaço ou esforço sem agregar valor do ponto de vista do cliente. O cliente só paga pelo que transforma o produto ou o serviço em algo que ele quer.

Os 7 desperdícios são a classificação de Taiichi Ohno, engenheiro da Toyota e um dos criadores do Sistema Toyota de Produção, para as perdas típicas da produção em massa: superprodução, espera, transporte, processamento excessivo, estoque, movimento e correção (defeitos). Muitos autores somam um oitavo, o talento não aproveitado.

A lista muda um pouco de livro para livro. Use-a como organização prática para enxergar perdas, não como regra fechada.

A ideia central é simples e incômoda: na maioria dos processos, a maior parte do tempo do produto não é de transformação. Ele espera, anda, é contado, é conferido e é refeito. Enxergar isso é o primeiro passo do Lean, porque ninguém melhora o que não vê. O desperdício também não é culpa de quem trabalha: é, quase sempre, consequência do jeito como o processo foi desenhado.

Os 7 desperdícios, com exemplos de chão de fábrica

DesperdícioO que éExemploPergunta para fazer no gemba
SuperproduçãoProduzir antes ou em maior quantidade do que o próximo processo ou o cliente precisaRodar o lote inteiro "já que a máquina está ajustada"Alguém vai consumir isso agora?
EsperaPessoa ou máquina parada por falta de material, ordem, ferramenta ou atendimentoAguardar a empilhadeira trazer a caixaQuem está parado e por quê?
TransporteMover material sem necessidadeLevar a peça ao almoxarifado e trazê-la de volta ao posto vizinhoEsse material precisa mesmo andar tanto?
Processamento excessivoFazer mais do que o cliente exige, ou do jeito mais complicadoTolerância mais apertada que a especificadaO cliente pagaria por esta etapa?
EstoqueMaterial acima do mínimo de um sistema puxado bem controladoPilhas de peças entre operaçõesPor que há tanta peça aqui e por quanto tempo?
MovimentoDeslocamentos e gestos do operador que não agregam valorProcurar ferramenta, abaixar para pegar peça no chãoO operador anda, alcança ou procura sem precisar?
CorreçãoInspeção, retrabalho, refugo e reparoSeparar peças boas das ruins no fim da linhaOnde o defeito nasce e quem o encontra?

Vários desperdícios aparecem juntos no mesmo posto. Classifique pelo que domina e não perca tempo discutindo a etiqueta.

Superprodução. É produzir sem pedido ou antes da hora. Parece produtividade, porque a máquina não para e os números do dia ficam bonitos, mas o material fica parado esperando a demanda.

Espera. Inclui o operador que olha a máquina rodar e a peça que fica na fila. Em geral, o tempo de espera do material é muito maior que o de processamento.

Transporte. Cada deslocamento é risco de dano e custo, e não transforma nada. A solução costuma ser de layout, não de empilhadeira mais rápida.

Processamento excessivo. É fazer mais do que o cliente pediu: polir uma face que ninguém vê, emitir três cópias de um relatório, conferir duas vezes o que já foi conferido.

Estoque. Esconde problemas. Com muita peça entre os postos, uma quebra não para o fluxo, e por isso ninguém a resolve de vez.

Movimento. Diferente do transporte, é o movimento do corpo: andar, abaixar, procurar, alcançar. Soma minutos por ciclo e vira fadiga e risco ergonômico.

Correção. Defeito, retrabalho, refugo e a inspeção que só existe para pegá-los. Quanto mais longe da origem o defeito é achado, mais cara fica a correção.

Causas comuns e contramedidas de cada desperdício

Cada desperdício costuma nascer de uma causa recorrente. Conhecer a causa evita atacar só o sintoma.

DesperdícioCausa comumContramedida típica
SuperproduçãoLotes grandes, metas por volume, troca de ferramenta demoradaProdução puxada, lotes menores, redução do tempo de troca (SMED)
EsperaFalta de material, quebra, desbalanceamento entre postosAbastecimento por rota, manutenção planejada, balanceamento do trabalho
TransporteLayout longo, estoque distante do ponto de usoLayout em fluxo, material no ponto de uso, rotas de abastecimento
Processamento excessivoEspecificação desconhecida, hábito, medo de reclamaçãoAlinhar requisitos com o cliente e padronizar o acabamento exigido
EstoquePrevisão ruim, lotes mínimos, falta de confiança no fornecedorSupermercado com kanban, nivelamento, fornecedores confiáveis
MovimentoPosto mal projetado, ferramentas fora do alcanceErgonomia, 5S, ferramenta no ponto de uso
CorreçãoProcesso sem padrão, erro humano, instrumento sem calibraçãoTrabalho padronizado, poka-yoke, controle na origem

Repare que a mesma causa aparece em mais de uma linha. Lote grande, por exemplo, gera superprodução, estoque e transporte ao mesmo tempo.

O oitavo desperdício, TIMWOODS e muda, mura e muri

O talento não aproveitado é o oitavo desperdício: ideias, experiência e habilidade de quem faz o trabalho que ninguém usa. Não está na lista original de Ohno, mas é muito adotado em programas de melhoria. Nos países de língua inglesa, as listas viram siglas: TIMWOODS (Transport, Inventory, Motion, Waiting, Overproduction, Over-processing, Defects, Skills) e DOWNTIME.

Muda é só um dos três "Ms". Mura é a irregularidade da carga, e muri é a sobrecarga de pessoas e máquinas. Os três se alimentam: a variação (mura) gera picos de sobrecarga (muri), e a sobrecarga gera erros e esperas (muda). A diferença está explicada em muda, mura e muri.

Os mesmos desperdícios existem fora da fábrica. Em um escritório, a superprodução é o relatório que ninguém lê, a espera é a aprovação parada na caixa de entrada, o movimento é procurar arquivo e a correção é refazer um pedido com dados errados. O vocabulário muda, a lógica não.

Por que a superprodução é a pior

O Lean Enterprise Institute (LEI) destaca a superprodução como o pior desperdício porque ela alimenta os outros seis. Produzir demais gera estoque, que exige transporte e movimento, esconde defeitos que viram correção e cria espera em outros pontos.

Por isso o Lean prefere a produção puxada, com kanban, à produção empurrada por previsão: só se produz o que o cliente (ou o processo seguinte) consumiu.

Atacar a superprodução exige olhar a causa. Lotes grandes vêm, em boa parte, de trocas de ferramenta demoradas e de metas por volume. Reduzir o tempo de troca, medir o fluxo e não o volume e liberar ordens só quando há consumo são mudanças que derrubam também o estoque, o transporte e a espera que dependem dela.

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Exemplo resolvido: um ciclo de 20 minutos

Antes das contas, uma regra de classificação. O LEI separa o trabalho em dois tipos, e o que sobra é desperdício puro:

Exemplo ilustrativo. Um posto de montagem foi observado por um ciclo completo, de 20 minutos por conjunto. Cada atividade foi cronometrada e classificada. A inspeção de 100% e o retrabalho entram como correção porque só existem por causa do defeito.

AtividadeTempoClasseDesperdício
Montar e soldar o conjunto6 minCria valor-
Buscar peças no almoxarifado3 minIncidentalTransporte
Procurar a chave no painel2 minIncidentalMovimento
Aguardar a empilhadeira4 minDesperdício puroEspera
Inspecionar 100% das peças no fim3 minDesperdício puroCorreção
Retrabalhar peças com rebarba2 minDesperdício puroCorreção
ClasseMinutos% do ciclo
Cria valor630%
Incidental525%
Desperdício puro945%
Total20100%

Parcela de valor: 6 ÷ 20 = 30%. Eliminando só o desperdício puro (9 min), o ciclo cai para 20 − 9 = 11 minutos e a parcela de valor sobe para 6 ÷ 11 = 54,5%.

Em um turno de 440 minutos, o posto passa de 440 ÷ 20 = 22 para 440 ÷ 11 = 40 conjuntos, desde que ele seja o gargalo e o fluxo seguinte acompanhe. Os 5 minutos incidentais ficam para a segunda rodada, porque exigem mudar o posto.

Como identificar e eliminar, passo a passo

  1. Escolha um processo e vá ao local: a caminhada gemba é a forma mais direta de ver o trabalho real.
  2. Observe um ciclo completo com cronômetro e papel, anotando cada atividade e o tempo.
  3. Classifique cada linha: cria valor, incidental ou desperdício puro, e dê o tipo do desperdício.
  4. Some por classe e calcule a parcela de valor. Para ver o fluxo inteiro, use o mapeamento do fluxo de valor.
  5. Ataque primeiro o desperdício puro. Para o incidental, mude o posto: ferramenta no ponto de uso, peça na altura certa, 5S.
  6. Meça antes e depois e registre o ganho em um ciclo de kaizen.

Para priorizar com mais de um posto, junte os tempos de desperdício puro por tipo e ordene do maior para o menor, como em um Pareto. Em geral, dois ou três tipos concentram a maior parte da perda, e é neles que o primeiro esforço rende mais. Faça isso com quem opera o posto: ninguém conhece melhor onde o tempo se perde.

Erros comuns

Próximo passo

Escolha hoje um posto e cronometre um ciclo completo. Preencha uma tabela como a do exemplo e calcule a parcela de valor. Ataque o maior item de desperdício puro e meça de novo em uma semana. Depois, repita no posto vizinho: a tabela fica mais rápida de preencher a cada rodada, e o time passa a enxergar o desperdício sem cronômetro.

Perguntas frequentes

Quais são os 7 desperdícios do Lean?

Superprodução, espera, transporte, processamento excessivo, estoque, movimento e correção (defeitos). É a classificação de Taiichi Ohno.

O que significa muda?

Muda é a palavra japonesa para desperdício: qualquer atividade que consome recursos sem agregar valor para o cliente.

Qual é o pior dos 7 desperdícios?

A superprodução, porque gera estoque e esconde defeitos, esperas e movimentos desnecessários.

Existe um oitavo desperdício?

Muitos autores incluem o talento não aproveitado das pessoas. Ele não faz parte da lista original de Ohno, mas é muito usado.

Qual a diferença entre muda, mura e muri?

Muda é desperdício, mura é irregularidade da carga e muri é sobrecarga de pessoas ou máquinas.

O que é TIMWOODS?

É uma sigla em inglês que ajuda a lembrar os desperdícios: Transport, Inventory, Motion, Waiting, Overproduction, Over-processing, Defects e Skills.

Como calcular a parcela de valor agregado?

Divida o tempo que cria valor pelo tempo total do ciclo. No exemplo do mapa, 6 minutos em 20 dão 30%.

Quem criou os 7 desperdícios?

Taiichi Ohno, engenheiro da Toyota e um dos criadores do Sistema Toyota de Produção.

Fontes

  1. Lean Enterprise Institute. What are the 7 Wastes in Lean? Lean Lexicon. https://www.lean.org/lexicon-terms/seven-wastes/
  2. Lean Enterprise Institute. Waste. Lean Lexicon. https://www.lean.org/lexicon-terms/waste/
  3. OHNO, T. O Sistema Toyota de Produção: além da produção em larga escala. Porto Alegre: Bookman.
  4. WOMACK, J. P.; JONES, D. T. A Mentalidade Enxuta nas Empresas. Rio de Janeiro: Elsevier.

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Sobre o autor

Vagner Soares

Especialista em Lean Manufacturing e Gestão Comportamental

Mais de 20 anos de indústria automotiva e metalmecânica (GM e Dana), especialista em Lean Manufacturing desde 2006. Instrutor e mentor do SENAI no programa Brasil Mais Produtivo, com consultorias, treinamentos e auditorias em mais de 50 empresas, unindo qualidade, produtividade e desenvolvimento de pessoas.