Ferramentas da qualidade e checklist de auditoria de um sistema de gestão
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O que é a ISO 9001

A ISO 9001 é a norma internacional de requisitos para um sistema de gestão da qualidade (SGQ). No Brasil, circula como ABNT NBR ISO 9001. Ela não diz como fabricar o seu produto. Ela exige que a empresa defina como vai atender clientes e requisitos legais, execute o que definiu, meça e melhore com base em evidências.

Há duas ideias que se misturam na busca. Implementar é montar e operar o sistema. Certificar é ter um organismo independente que audita esse sistema e emite o certificado. Dá para implementar sem certificar. Não dá para certificar sem implementar.

As cláusulas que a auditoria cobra

A norma segue a estrutura de alto nível comum aos sistemas de gestão, com dez cláusulas. As de 1 a 3 são introdutórias. Os requisitos auditáveis estão nas cláusulas 4 a 10.

CláusulaTemaO que a empresa precisa mostrar
4Contexto da organizaçãoPartes interessadas, escopo e processos do sistema
5LiderançaPolítica da qualidade, papéis e comprometimento da direção
6PlanejamentoRiscos e oportunidades, objetivos mensuráveis
7ApoioPessoas, competência, recursos, informação documentada
8OperaçãoControle de projeto, compras, produção e liberação
9Avaliação de desempenhoIndicadores, auditoria interna, análise crítica pela direção
10MelhoriaTratamento de não conformidades e ações corretivas

A lógica por trás da estrutura é o ciclo PDCA: planejar (4 a 6), fazer (7 e 8), verificar (9) e agir (10).

Por trás dos requisitos estão sete princípios de gestão da qualidade, da família ISO 9000: foco no cliente, liderança, engajamento das pessoas, abordagem de processo, melhoria, decisão baseada em evidências e gestão de relacionamento com as partes interessadas. Eles ajudam a interpretar a norma quando o texto deixa dúvida.

Exemplo: diagnóstico de lacunas e objetivo de entrega

Exemplo ilustrativo de uma metalúrgica fictícia. O primeiro passo é comparar o que a empresa já faz com cada requisito da norma. A análise de lacunas listou 40 requisitos aplicáveis ao escopo:

SituaçãoRequisitosPercentual
Atendidos2870,0%
Atendidos em parte820,0%
Ausentes410,0%
Total40100,0%

Os 12 requisitos parciais ou ausentes (8 + 4) viram o plano de ação, organizado por cláusula:

CláusulaLacuna encontradaRequisitos
6Objetivos sem meta numérica3
7Registros de competência incompletos4
8Avaliação de fornecedores sem critério3
9Auditoria interna nunca realizada1
10Ação corretiva sem verificação de eficácia1
Total12

A soma fecha: 3 + 4 + 3 + 1 + 1 = 12. Com o plano em mãos, a direção definiu um objetivo mensurável na cláusula 6: entregar no prazo 95% dos pedidos. No mês medido, 372 de 400 pedidos saíram no prazo.

Taxa de entrega no prazo = 372 ÷ 400 = 93,0%. A meta de 95% equivale a 0,95 × 400 = 380 pedidos. Faltam 8 pedidos para atingi-la. Esse número vai para a análise crítica e, se a lacuna persistir, para uma ação corretiva.

Como implementar: passo a passo em seis fases

Durações variam muito com o porte e a maturidade da empresa. O que importa é a ordem e o critério de saída de cada fase.

  1. Diagnóstico e escopo (cláusula 4): liste partes interessadas, defina o que entra no escopo e faça a análise de lacunas. Um mapa SIPOC ajuda a enxergar entradas, saídas e clientes de cada processo.
  2. Política e planejamento (cláusulas 5 e 6): a direção assina a política, define objetivos mensuráveis e trata riscos. A FMEA não é exigida pela norma, mas atende bem ao requisito de riscos de processo.
  3. Processos e documentação (cláusulas 7 e 8): defina processos, competências e controles operacionais. Documente o que o risco justifica.
  4. Medir e auditar (cláusula 9): acompanhe os indicadores e faça a auditoria interna com auditores independentes da área auditada.
  5. Análise crítica e melhoria (cláusulas 9 e 10): a direção analisa os resultados em reunião registrada e as ações corretivas são verificadas quanto à eficácia.
  6. Certificação: contrate o organismo e passe pelas auditorias externas.

O que documentar

A norma não exige um manual da qualidade nem uma lista fixa de procedimentos. Ela exige informação documentada em pontos específicos. Entre outros: escopo do sistema, política e objetivos da qualidade, evidências de competência das pessoas, resultados da auditoria interna e da análise crítica pela direção e registros de não conformidades e ações corretivas.

O restante depende da necessidade da empresa. Pergunte para cada documento: se ele não existisse, qual risco apareceria? Se a resposta for nenhum, não escreva. Instruções curtas, no posto de trabalho, funcionam melhor que pastas de procedimentos que ninguém abre.

Como funciona a certificação

A ISO publica a norma, mas não emite certificados. Quem certifica é um organismo de certificação, empresa independente que audita o sistema. Para o certificado ter peso, o organismo deve ser acreditado. No Brasil, a acreditação é feita pelo Inmetro. Confira isso antes de contratar.

EtapaO que acontece
Proposta e contratoO organismo define escopo, locais e dias de auditoria
Auditoria de estágio 1Verifica se o sistema está pronto: documentação, auditoria interna e análise crítica já feitas
Auditoria de estágio 2Avalia a implementação e a eficácia no local, com entrevistas e registros
Tratamento dos achadosA empresa responde às não conformidades com causa raiz e ação corretiva
Decisão de certificaçãoQuem não participou da auditoria revisa o relatório e decide
Ciclo de três anosAuditorias de manutenção nos anos 1 e 2 e recertificação no ano 3

Uma não conformidade maior compromete a capacidade do sistema de atingir os resultados pretendidos e impede a certificação até ser tratada. Uma menor é uma falha pontual que exige plano de ação. Os organismos têm critérios próprios de enquadramento, então peça o procedimento deles. Para tratar a causa, use os 5 Porquês.

Como chegar preparado ao dia da auditoria

Mostre o sistema funcionando, não uma pasta. Treine as pessoas para explicar o que fazem e por quê, sem decorar respostas. Tenha à mão os registros de indicadores, a ata da análise crítica e o relatório da auditoria interna com as ações fechadas. Se o auditor pedir um registro e ele não existir, diga a verdade. Inventar evidência custa mais caro que a lacuna.

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Auditoria interna: como deixar de ser formalidade

A auditoria interna é o teste mais barato antes do organismo chegar. Para funcionar, ela precisa de três coisas. Primeiro, um programa que cubra todos os processos e priorize os mais críticos ou com histórico de problemas. Segundo, auditores que não auditem o próprio trabalho. Terceiro, achados tratados com causa raiz e verificação de eficácia, não só com correção do sintoma.

Audite no posto de trabalho. Peça para a pessoa mostrar como executa a tarefa e compare com o que o sistema define. Quando a prática e o papel divergem, um dos dois está errado. Corrija o que for necessário.

ISO 9001, Lean e outras ferramentas

A ISO 9001 diz o que o sistema precisa ter. Ferramentas como as 7 ferramentas da qualidade e o Lean dizem como melhorar o desempenho. Elas se complementam: a norma dá a estrutura e a disciplina de registro, e o Lean ataca o desperdício dentro dos processos. Também é comum comparar a norma com o Six Sigma. A norma exige melhoria, mas não impõe um método.

Quando o sistema é levado a sério, os ganhos aparecem em processos mais previsíveis, menos retrabalho, fornecedores avaliados com critério e decisões apoiadas em dados. Quando é tratado como troféu de parede, o único resultado é o custo da manutenção anual.

Certificar vale a pena?

Depende do motivo. Se um cliente importante ou uma licitação exige o certificado, a resposta já está dada. Se o objetivo é organizar a casa, você pode implementar o sistema e adiar a certificação até que ele esteja estável. Nesse caso, a auditoria interna e a análise crítica continuam sendo obrigatórias na prática, porque são elas que mantêm o sistema vivo. Compare o custo da certificação e das auditorias anuais com o benefício comercial esperado antes de decidir.

Erros comuns

Próximo passo

Esta semana, faça a análise de lacunas do seu escopo. Liste os requisitos das cláusulas 4 a 10, marque cada um como atendido, parcial ou ausente e conte. Depois, escolha um objetivo mensurável, como a entrega no prazo, e meça o valor atual. Com esses dois números você tem o ponto de partida e o plano de ação para as fases seguintes.

Perguntas frequentes

O que é a ISO 9001?

É a norma internacional de requisitos para um sistema de gestão da qualidade. Ela define o que a empresa precisa ter, não como fabricar o produto.

ISO 9001 é obrigatória?

A norma em si é voluntária. Muitos clientes e licitações a exigem como condição, e aí ela vira requisito comercial.

Quais são as cláusulas auditáveis da ISO 9001?

As cláusulas 4 a 10: contexto, liderança, planejamento, apoio, operação, avaliação de desempenho e melhoria.

Quanto tempo leva para implementar a ISO 9001?

Depende do porte, da maturidade e do escopo da empresa. O que define o ritmo é cumprir o critério de saída de cada fase.

Qual a diferença entre implementar e certificar?

Implementar é montar e operar o sistema. Certificar é ser auditado por um organismo independente que emite o certificado.

Quem emite o certificado ISO 9001?

Um organismo de certificação, não a ISO. Ele deve ser acreditado, no Brasil pelo Inmetro.

Qual a diferença entre estágio 1 e estágio 2?

O estágio 1 avalia se o sistema está pronto. O estágio 2 avalia a implementação e a eficácia na operação real.

Quanto tempo vale o certificado?

Três anos, com auditorias de manutenção nos anos 1 e 2 e recertificação no ano 3.

Fontes

  1. ABNT NBR ISO 9001. Sistemas de gestão da qualidade: requisitos. Rio de Janeiro: ABNT.
  2. ABNT NBR ISO 19011. Diretrizes para auditoria de sistemas de gestão. Rio de Janeiro: ABNT.
  3. JURAN, J. M.; DE FEO, J. A. Juran's Quality Handbook. New York: McGraw-Hill.
  4. CAMPOS, V. F. TQC: Controle da Qualidade Total no estilo japonês. Nova Lima: Falconi.

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Sobre o autor

Vagner Soares

Especialista em Lean Manufacturing e Gestão Comportamental

Mais de 20 anos de indústria automotiva e metalmecânica (GM e Dana), especialista em Lean Manufacturing desde 2006. Instrutor e mentor do SENAI no programa Brasil Mais Produtivo, com consultorias, treinamentos e auditorias em mais de 50 empresas, unindo qualidade, produtividade e desenvolvimento de pessoas.