
Sete clássicos e um oitavo
A lista original de perdas do Sistema Toyota de Produção tem sete itens. Muitas empresas, porém, trabalham com oito desperdícios. O acréscimo é o talento não utilizado: a inteligência, a experiência e a iniciativa das pessoas que ficam fora da solução dos problemas.
Este texto não repete a descrição detalhada dos sete primeiros. Ela está em Os 7 desperdícios do Lean. Aqui o foco é o oitavo, o mnemônico para memorizar a lista e um método para enxergar cada perda no chão de fábrica.
Vale um registro honesto: a versão com oito itens é uma prática difundida na literatura Lean ocidental, não uma lista fixa de Taiichi Ohno. Os sete originais continuam sendo a base. O oitavo é uma extensão útil.
Os oito desperdícios em uma tabela
A tabela resume cada perda com um sinal típico de que ela está presente.
| # | Desperdício | Em uma frase | Sinal no gemba |
|---|---|---|---|
| 1 | Transporte | Mover material sem agregar valor | Empilhadeira cruzando a fábrica para levar peça entre etapas vizinhas |
| 2 | Estoque | Material parado além do necessário | Paletes de semiacabado esperando a próxima operação |
| 3 | Movimentação | Gestos do operador que não transformam o produto | Pessoa caminhando para buscar ferramenta ou andando atrás de documentos |
| 4 | Espera | Pessoa ou máquina parada aguardando algo | Operador olhando a máquina ciclar ou esperando liberação de qualidade |
| 5 | Superprodução | Produzir mais, ou antes, do que o cliente pede | Lotes grandes feitos para aproveitar a troca de setup |
| 6 | Superprocessamento | Fazer mais do que o cliente valoriza | Acabamento além da especificação, aprovações redundantes |
| 7 | Defeitos | Produto que exige retrabalho ou descarte | Área de retrabalho, sucata e inspeção final cheia |
| 8 | Talento não utilizado | Ignorar conhecimento e criatividade das pessoas | Sugestões sem resposta, operador sem voz na decisão do posto |
Os sete primeiros são perdas de processo. O oitavo é uma perda de gestão: a empresa paga salário pela pessoa inteira e usa só as mãos.
Mnemônico para guardar a lista
Para memorizar, muitos times usam a sigla em inglês TIMWOODS, formada pelas iniciais dos desperdícios em inglês:
- Transportation: transporte.
- Inventory: estoque.
- Motion: movimentação.
- Waiting: espera.
- Overproduction: superprodução.
- Over-processing: superprocessamento.
- Defects: defeitos.
- Skills: habilidades não aproveitadas.
Outra sigla comum é DOWNTIME, que reaproveita as mesmas ideias com ordem diferente. Escolha uma só e coloque no quadro da equipe. O objetivo não é decorar por decorar. É ter um vocabulário comum nas caminhadas de observação.
O oitavo desperdício: talento não utilizado
Talento não utilizado aparece quando a organização desperdiça o que as pessoas sabem e poderiam aprender. Quem opera a máquina todo dia conhece as falhas dela melhor que qualquer projeto de consultoria.
Os sintomas mais frequentes são fáceis de reconhecer:
- Operador qualificado fazendo apenas tarefa repetitiva, sem participar de ajustes.
- Sugestões de melhoria que somem sem retorno em até duas semanas.
- Decisões de método tomadas só pelo escritório, sem consultar o posto.
- Treinamento dado uma vez e nunca aplicado.
- Alta rotatividade em áreas onde ninguém é ouvido.
Esse desperdício é o mais caro e o menos visível, porque não aparece em nenhum relatório de estoque ou refugo. Ele se esconde atrás dos outros sete: quase todo desperdício físico persiste porque alguém que o via não foi escutado.
Como identificar os oito no chão de fábrica
Identificar desperdício é uma habilidade de observação. Siga este roteiro simples.
- Escolha um fluxo curto. Um produto, do recebimento ao despacho, ou um posto de trabalho.
- Vá ao local. Faça uma caminhada gemba com papel na mão, sem laptop.
- Cronometre sem julgar. Marque quanto tempo o produto fica parado e quanto tempo ele é transformado.
- Classifique cada perda. Use a tabela acima e escreva o número do desperdício ao lado do registro.
- Pergunte à pessoa do posto. A pergunta é: o que mais atrapalha seu trabalho aqui? A resposta ajuda a medir o oitavo.
- Priorize por impacto e facilidade. Comece pelas perdas fáceis de atacar e que atrapalham mais gente.
Uma regra prática: se a atividade não transforma o produto, não é algo pelo qual o cliente pagaria e não é obrigatória por norma, trate como candidata a desperdício.
Como os desperdícios se alimentam
Os oito não vivem isolados. Um alimenta o outro, e por isso combatê-los um a um costuma dar pouco resultado.
- Superprodução gera estoque, que gera transporte e espaço ocupado.
- Defeito gera retrabalho, que gera espera e movimentação extra.
- Espera costuma esconder um gargalo, tema de Teoria das Restrições.
- Talento não utilizado impede que alguém note e corte os demais.
Para ver o encadeamento em todo o fluxo, use o mapeamento do fluxo de valor. O mapa mostra onde o produto espera e onde cada perda entra. Também vale ler sobre muda, mura e muri, que explica por que o desperdício é só uma das três famílias de perda.
Próximo passo
Nesta semana, escolha um posto e faça uma observação de 30 minutos. Anote cada ocorrência com o número do desperdício, de 1 a 8. Ao final, some por categoria e apresente o resultado à equipe do posto.
Depois, conduza o ciclo de melhoria com a pessoa que mais entende do trabalho. Para detalhes do restante da lista, leia também Desperdícios na manufatura e o artigo sobre 10 cenários práticos de eliminação.
Perguntas frequentes
Quais são os 8 desperdícios da manufatura?
Transporte, estoque, movimentação, espera, superprodução, superprocessamento, defeitos e talento não utilizado.
O oitavo desperdício faz parte do Sistema Toyota original?
Não. A lista original tem sete itens. O talento não utilizado é uma extensão difundida na prática Lean ocidental.
O que significa TIMWOODS?
É um mnemônico em inglês com as iniciais dos oito desperdícios: Transportation, Inventory, Motion, Waiting, Overproduction, Over-processing, Defects e Skills.
Como começar a identificar desperdícios?
Observe um fluxo curto no local, cronometre o tempo parado, classifique cada perda e ouça a pessoa do posto.
Continue estudando
Fontes
- OHNO, T. O Sistema Toyota de Produção: além da produção em larga escala. Porto Alegre: Bookman.
- LIKER, J. O Modelo Toyota. Porto Alegre: Bookman.
- Lean Enterprise Institute. Lean Lexicon: Seven Wastes. https://www.lean.org/lexicon-terms/seven-wastes/
- Lean Enterprise Institute. Lean Lexicon: Waste. https://www.lean.org/lexicon-terms/waste/
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