Cartões kanban numerados sobre uma mesa de trabalho, com contêineres ao fundo
Anúncio · Publicidade

Por que o kanban precisa de regras

Cartões não controlam nada sozinhos. Um sistema kanban funciona quando as pessoas respeitam um conjunto curto de regras. Se uma delas é quebrada, o cartão vira papel e o estoque volta a crescer sem aviso.

Quatro regras formam o núcleo e aparecem na maioria dos textos sobre o assunto. Elas se apoiam na lógica descrita em kanban e produção puxada e no mecanismo do just in time.

As regras valem para o circuito inteiro, do recebimento à expedição. Elas também valem para fornecedores externos, desde que o acordo seja claro: o que é puxado, em que horário e com qual padrão de qualidade. Sem esse acordo escrito, o fornecedor tende a entregar lotes grandes de uma vez, por conveniência logística, e o cliente volta a acumular estoque.

Regra 1: o cliente retira só o necessário, no momento certo

O processo seguinte busca no processo anterior apenas o que vai usar, na quantidade do cartão e quando precisa. Retirar a mais cria estoque na casa do cliente. Retirar sem cartão apaga a rastreabilidade do consumo.

Na prática:

Na maior parte das fábricas, essa regra é quebrada por boa intenção. O operador "adianta" uma retirada para não parar mais tarde, ou o abastecedor leva dois contêineres em vez de um para economizar viagem. O resultado é o mesmo: o cartão deixa de representar o consumo real, e o fornecedor passa a produzir sobre uma informação distorcida.

Regra 2: o fornecedor produz só o que foi retirado

O processo anterior fabrica a quantidade que saiu do supermercado, na ordem em que os cartões chegam. Se o fornecedor produz por conta própria porque a máquina está livre, ele rompe o limite do sistema.

Na prática:

Essa regra é a que mais encontra resistência. Cada operador foi treinado para manter a máquina ocupada, e agora precisa deixá-la parada quando não há demanda real. Ocupar máquina com peça que ninguém pediu é superprodução, um dos 7 desperdícios do Lean.

Regra 3: nunca enviar peça defeituosa

Como o estoque é pequeno, uma peça ruim para a linha. Não há colchão para absorver o defeito. Por isso o fornecedor entrega apenas peças conformes, e o cliente não aceita peça duvidosa.

Na prática:

Vale o mesmo cuidado com a contagem. Contêiner com quantidade errada é uma forma de defeito, porque desorganiza o cálculo do consumo. Padronize o contêiner de modo que só caiba a quantidade certa.

Regra 4: reduzir o número de cartões gradualmente

Cada cartão equivale a uma quantidade de estoque. Tirar cartões diminui o estoque e expõe problemas que ele cobria, como máquina instável, troca lenta de ferramenta e transporte irregular. A redução deve ser gradual e acompanhada.

Exemplo ilustrativo: um circuito tem 12 cartões de 20 peças. O estoque máximo no circuito é 12 × 20 = 240 peças. Retira-se 1 cartão: o máximo cai para 11 × 20 = 220 peças. Se por duas semanas não houve falta, retira-se outro e o máximo cai para 200 peças. Se a linha parar, o cartão volta e a causa da parada vira projeto de melhoria.

Reduzir sem investigar causas, ou reduzir tudo de uma vez, gera falta e descrédito do sistema. O ritmo de redução acompanha a capacidade de resolver problemas. O cálculo inicial do número de cartões está em dimensionamento de kanban.

Anúncio · Publicidade

E as outras regras que Monden descreve

Yasuhiro Monden, em seu livro sobre o Sistema Toyota de Produção, descreve seis regras do kanban. As quatro acima correspondem ao núcleo operacional. As outras duas funcionam como pré-condições do sistema.

Regra complementarO que significaPor que sustenta o kanban
Nivelar a produçãoDistribuir volume e mix de forma regular ao longo do períodoSem nivelamento, o consumo oscila e exige mais cartões ou gera faltas
Estabilizar e racionalizar o processoPadronizar o trabalho e eliminar variações de máquina, método e materialProcesso instável força estoque de segurança e quebra as regras 2 e 3

Para nivelar, veja o heijunka. Para estabilizar, comece pelo trabalho padronizado.

Resumo para o chão de fábrica

Use a lista como auditoria semanal, de cinco minutos, feita pelo líder ao lado do operador. O objetivo não é pontuar, e sim conversar sobre cada resposta negativa.

Próximo passo

Imprima as quatro regras em uma folha e cole no quadro do circuito. Faça uma auditoria semanal de cinco minutos com a lista acima. Cada "não" é uma oportunidade de treinamento ou de melhoria do processo. Quando as quatro regras forem rotina, comece a reduzir cartões, um de cada vez.

Perguntas frequentes

Quais são as 4 regras do kanban?

O cliente retira só o necessário no momento certo, o fornecedor produz só o que foi retirado, nunca se envia peça defeituosa e o número de cartões é reduzido gradualmente.

Por que não enviar peça defeituosa no kanban?

Porque o estoque entre os processos é pequeno. Um defeito para o cliente quase imediatamente.

Monden descreve quantas regras?

Seis. As outras duas, nivelar a produção e estabilizar e racionalizar o processo, complementam as quatro operacionais.

Por que reduzir cartões aos poucos?

Cada redução expõe problemas que o estoque escondia. Fazê-la de forma gradual dá tempo de resolver as causas sem gerar faltas.

O fornecedor pode produzir sem cartão?

Não. Produzir sem cartão cria superprodução e rompe o limite de estoque do circuito.

Fontes

  1. MONDEN, Y. Toyota Production System: An Integrated Approach to Just-in-Time. CRC Press.
  2. OHNO, T. O Sistema Toyota de Produção: além da produção em larga escala. Porto Alegre: Bookman.
  3. Lean Enterprise Institute. Kanban (glossário Lean). https://www.lean.org/lexicon-terms/kanban/
  4. SMALLEY, A. Criando o Sistema Puxado Nivelado. Lean Institute Brasil.

Quer uma produção puxada de verdade?

Baixe o e-book gratuito sobre produção puxada, com kanban, supermercado e nivelamento.

Baixar e-book
Anúncio · Publicidade
Foto de Vagner Soares

Sobre o autor

Vagner Soares

Especialista em Lean Manufacturing e Gestão Comportamental

Mais de 20 anos de indústria automotiva e metalmecânica (GM e Dana), especialista em Lean Manufacturing desde 2006. Instrutor e mentor do SENAI no programa Brasil Mais Produtivo, com consultorias, treinamentos e auditorias em mais de 50 empresas, unindo qualidade, produtividade e desenvolvimento de pessoas.