
- O que um grau IP certifica
- Como ler o código IP
- IP66, IP68 e IP69K lado a lado
- IP68: a condição combinada
- NEMA 6 e 6P: a leitura norte-americana
- Grau IK: quando o risco é a pancada
- O IP é do conjunto montado
- Materiais e ensaios que fazem o IP durar
- Temperatura: faixa do material e T-marking
- Como escolher o grau de proteção, ponto a ponto
- Perguntas frequentes
O que um grau IP certifica
Um grau IP é o resultado de um ensaio de tipo: curto, em condição controlada, com o conjunto novo e bem montado. Ele responde a uma pergunta precisa (esta forma de água entra neste invólucro?) e a nenhuma outra. Lido assim, o número é muito útil. Lido como promessa de vida útil, ele engana.
A primeira consequência é que “área molhada” não é especificação. Uma caixa de passagem enterrada que enche a cada chuva expõe o conector a água parada por horas, sob pequena coluna de pressão. A sala de desossa de um frigorífico no fim do turno o expõe a jato quente de lavadora, aplicado de perto. São ameaças fisicamente diferentes, e cada uma tem o seu ensaio. A Techno do Brasil organiza a sua linha exatamente por essa lógica, com três graus lado a lado: IP66 para jatos potentes de água, IP68 para submersão permanente e IP69 para água em alta temperatura e alta pressão, com 80 °C e 80 a 100 bar. Cada número corresponde a uma ameaça concreta, e é assim que um grau de proteção deve ser lido.
Como ler o código IP
O código IP (de Ingress Protection) é definido pela norma IEC 60529. São dois algarismos. O primeiro descreve a proteção contra a entrada de sólidos e poeira; o segundo, contra a entrada de água. Um “X” no lugar de um dígito indica que aquele aspecto não foi classificado: IPX7, por exemplo, fala só de água.
| Dígito | Significado |
|---|---|
| 6 (primeiro dígito) | Totalmente protegido contra poeira |
| 5 (segundo dígito) | Jatos de água |
| 6 (segundo dígito) | Jatos potentes de água |
| 7 (segundo dígito) | Imersão temporária |
| 8 (segundo dígito) | Imersão contínua, em condições definidas entre fabricante e usuário |
| 9 (segundo dígito) | Jatos de água em alta temperatura e alta pressão |
Um detalhe que costuma passar despercebido: os dígitos de água não formam uma escada em que o número maior inclui todos os menores. Jato e imersão são ensaios diferentes. Por isso é comum encontrar produtos com marcação dupla ou tripla, como IP66/IP68, que passaram por mais de um ensaio. Os parâmetros de cada um (vazão, bocal, distância, profundidade e duração) estão na própria norma.
IP66, IP68 e IP69K lado a lado
| Grau | Ameaça que o ensaio representa | Situação típica na indústria |
|---|---|---|
| IP66 | Poeira não entra; jatos potentes de água não penetram de forma prejudicial | Lavagem com mangueira, chuva forte, áreas externas, mineração |
| IP68 | Poeira não entra; o conjunto suporta imersão contínua em condição combinada | Caixas de passagem alagáveis, instalações subterrâneas, bombas e sondas |
| IP69K | Jatos de alta pressão e alta temperatura, de perto e por vários ângulos | Higienização em alimentos e frigoríficos, lavagem de máquinas agrícolas e veículos |
De onde vem o “K” do IP69K
O IP69K nasceu no mundo automotivo, para veículos e equipamentos que passam por lavagem pesada. A marcação com “K” vem da ISO 20653, norma para veículos rodoviários. A IEC 60529 incorporou depois o nível equivalente como segundo dígito 9. Na prática, fabricantes de componentes industriais usam as duas notações, e a ficha técnica indica qual ensaio foi aplicado. Os valores mostrados pela Techno (80 °C e 80 a 100 bar) descrevem bem o tipo de agressão: é água quente sob pressão de lavadora industrial, aplicada de perto.
Na capa do material, os selos IP69K, IP68 e IP66 aparecem juntos com um quarto selo, “Resin-gel free”. Ele indica que a vedação não depende de resina ou gel despejados na montagem, o que tem consequência direta para a manutenção: o conector pode ser aberto, inspecionado e fechado de novo.
IP68: a condição combinada
O IP68 tem uma característica que muda a forma de especificar: a profundidade e o tempo de imersão são definidos entre fabricante e usuário, desde que mais severos que os do IPX7. Dois produtos IP68 podem ter sido ensaiados em condições bem diferentes. Na prática:
- para pontos que ficam submersos por longos períodos, peça ao fabricante a profundidade e a duração do ensaio;
- compare condições, e não apenas siglas;
- lembre que um soquete sem o plugue, ou um plugue sem tampa, não tem a mesma proteção do conjunto acoplado.
O catálogo geral da Techno lista, por série, combinações como IP66/IP68, IP66/IP68/IP69 e IP66/IP67/IP68, o que mostra a mesma série avaliada em mais de um tipo de ensaio. Um exemplo de campo que ilustra bem o IP68 é o da iluminação de uma quadra em Mogi das Cruzes (SP), com instalação subterrânea e submersa, contado em condensação e infiltração de água em conexões.
NEMA 6 e 6P: a leitura norte-americana
No slide de materiais, a Techno citou também as classificações NEMA, usadas nos Estados Unidos e comuns em máquinas importadas ou exportadas. O Type 6 protege contra a entrada de água em submersão temporária a profundidade limitada. O Type 6P vai além: submersão prolongada (o “P” vem de prolonged) e resistência a ambientes corrosivos, como água salgada. A NEMA não é uma tradução direta do IP, porque inclui requisitos como corrosão, mas ajuda a conversar com projetos que chegam com especificação norte-americana.
Grau IK: quando o risco é a pancada
O IP não diz nada sobre impacto. Para isso existe o grau IK, definido pela IEC 62262 (EN 62262 na Europa), que mede a energia de impacto que o invólucro suporta.
| Grau IK | Energia de impacto | Leitura prática |
|---|---|---|
| IK07 | 2 J | Pancadas leves de manuseio |
| IK08 | 5 J | Uso industrial geral, ferramenta que escorrega |
| IK09 | 10 J | Áreas com movimentação de materiais |
| IK10 | 20 J (massa de 5 kg) | O nível mais alto da escala |
Na apresentação, a Techno indicou IK08 como referência e IK10 (20 J, 5 kg) como valor máximo, conforme a EN 62262; o catálogo registra, conforme a série, valores de IK07 a IK10. Em corredores de empilhadeira, pátios de máquinas agrícolas ou plataformas onde alguém pisa no cabo, o IK merece estar na especificação ao lado do IP. Uma vedação perfeita não adianta muito se o corpo trinca na primeira batida.
O IP é do conjunto montado

Todo grau de proteção é um resultado de ensaio feito com o produto montado corretamente, com o cabo dentro da faixa de diâmetro e o acoplamento completo. Em campo, quem reproduz (ou não) a condição do ensaio é o montador. É por isso que a vedação co-moldada, em que a borracha é injetada junto com o plástico, tem peso técnico. A Techno apontou três consequências: instalação mais rápida, por usar poucos componentes; menos erros de montagem, com juntas que evitam vazamento; e maior resistência, pela aderência químico-mecânica entre plástico e borracha.
Na linguagem de um FMEA de projeto, cada peça separada e cada etapa de montagem em campo é um modo de falha com a sua ocorrência: anel esquecido, anel invertido, anel mordido na rosca. Quando o anel deixa de ser peça solta, esses modos de falha deixam de existir. A ocorrência cai por projeto, e não por treinamento: é um poka-yoke embutido no componente. Os outros cuidados continuam com a equipe: cabo na faixa, aperto correto e encaixe até a trava. O cabo na faixa importa também pelo tempo: elastômeros sob compressão e calor sofrem deformação permanente por compressão (compression set) e perdem força de vedação; uma montagem que começa no limite inferior da compressão é a primeira a vazar. O passo a passo para acertar o cabo está no checklist para escolher conectores elétricos industriais.
Materiais e ensaios que fazem o IP durar
O IP é medido num produto novo, numa sessão de ensaio. Envelhecimento, radiação UV, ozônio, névoa salina, ataque químico e ciclo térmico ficam fora dele. Em campo, porém, são esses agentes que decidem quando a vedação deixa de funcionar: a borracha resseca e trinca, o polímero perde tenacidade, a superfície de vedação deixa de ser lisa. Por isso os ensaios de material complementam o IP, e não o repetem. A Techno resumiu o princípio num slide: “a escolha dos materiais certos é fundamental para a vida das conexões”. O que a empresa apresentou:
| Característica | Ensaio ou referência citada | O que significa no chão de fábrica |
|---|---|---|
| Corpo em PA66 com 30% de fibra de vidro | UL 94 V0/V2 | Nylon reforçado: mantém a forma e resiste ao uso; classificação de comportamento à chama |
| Comportamento ao fogo | Fio incandescente (glow-wire) a 850 °C e 960 °C; classe 5VA da UL 94 | A 5VA é a classe mais exigente da UL 94 para invólucros. Veja a página da UL sobre ensaios de chama em plásticos |
| Radiação UV | EN 60079-0, 1.000 h; materiais f1 (UL 746C) | f1 indica material adequado a uso externo, com UV, imersão em água e variação térmica |
| Ozônio | Envelhecimento em ar com ozônio, ISO 1431-1 | O ozônio resseca e trinca borrachas; relevante perto de motores e em área externa |
| Névoa salina | EN 60068-2-11 | Resistência à corrosão em áreas portuárias, litorâneas e com respingo salino |
| Composição | Livre de halogênio (REACH e RoHS), sem enxofre e sem silicone | Menos fumaça tóxica em incêndio; sem enxofre, compatível com LED; sem silicone, contaminante conhecido em linhas de pintura |
Resistência química
A apresentação trouxe ainda uma tabela de resistência química. Segundo a Techno, os materiais resistem a acetileno, amônia, benzeno, cloreto de cálcio, gasolina, fertilizantes, óleos lubrificantes, petróleo, fosfatos e água do mar. Álcoois metílicos e cloro aparecem como resistência parcial. Para quem atende frigoríficos (amônia), agronegócio (fertilizantes) ou tratamento de água (cloro), essa tabela vale tanto quanto o IP na hora de escolher.
Temperatura: faixa do material e T-marking
O catálogo informa uma faixa de −40 °C a +125 °C para os materiais e, separadamente, uma marcação de temperatura (T-marking) por série, com valores como +60 °C, +85 °C ou +100 °C. São informações diferentes: a faixa fala do material; o T-marking, da temperatura de operação para a qual a série foi qualificada. Como boa prática de engenharia, é o T-marking da série que se confere contra a temperatura real do ponto.
Um dos cases da apresentação mostra por que esse dado importa. Numa indústria de massas, uma máquina trabalha com 85 °C contínuos e 90% de umidade, e o conector THB.387.A4A foi aplicado no motor. A Techno mostrou fotos do dia da instalação e de uma inspeção feita oito meses depois. É o tipo de ambiente que soma calor, umidade e ciclos de limpeza, em que a especificação precisa olhar o IP, o material e a temperatura de operação ao mesmo tempo. Calor contínuo acelera justamente os mecanismos que o ensaio IP não mede: o envelhecimento do elastômero e a oxidação dos contatos.
Como escolher o grau de proteção, ponto a ponto
- Descreva a pior condição real de cada ponto: chuva, lavagem diária, lavagem a quente sob pressão, alagamento ocasional ou imersão permanente.
- Mapeie por ponto, não por máquina. A mesma linha pode ter pontos IP66, pontos IP68 e pontos IP69K.
- Peça a condição de ensaio quando o ponto for submerso ou crítico.
- Some o IK onde houver tráfego, pisoteio ou movimentação de materiais.
- Cheque materiais e temperatura: química do ambiente, exposição ao sol e T-marking da série.
- Acompanhe em campo. Inspeções planejadas, inclusive com termografia, mostram aquecimento anormal em ligações. É o sintoma de contato degradado: umidade, micromovimento por vibração e ciclo térmico (corrosão por atrito, ou fretting) e oxidação elevam a resistência de contato, e a potência dissipada no ponto cresce com ela.
Se as falhas por umidade continuarem, um diagrama de Pareto mostra quais pontos concentram as ocorrências, e uma análise de causa raiz nos mais críticos indica se o problema é o grau escolhido, a montagem ou um mecanismo que o IP não mede, como a condensação interna. O efeito disso sobre a produção é o tema de conexões elétricas industriais e produtividade, e a visão completa da tecnologia está no guia da Techno do Brasil.
Na minha avaliação, o grau de proteção funciona como um contrato com duas assinaturas. O fabricante assina o ensaio; a planta assina a montagem, o cabo e o ambiente. O que diferencia a abordagem da Techno é cobrir o espaço entre as duas: a vedação co-moldada reduz a dependência do montador, os ensaios de ozônio, UV e névoa salina qualificam o material para o tempo e não só para o dia do ensaio, e a barreira anticondensação xDRY® trata um modo de falha, a respiração do invólucro com o ciclo térmico, que nenhum ensaio IP reproduz. Isso é um diferencial porque desloca a confiabilidade do campo para o projeto, que é onde ela custa menos.
Perguntas frequentes
IP68 é melhor que IP66?
Não necessariamente. IP68 trata de imersão contínua; IP66, de jatos potentes. São ensaios diferentes, e um produto pode ter os dois. A escolha depende da condição real do ponto.
O que significa o K em IP69K?
O K vem da ISO 20653, norma para veículos rodoviários, e indica o ensaio com jato de água em alta pressão e alta temperatura. A IEC 60529 traz o nível equivalente como segundo dígito 9.
Qual a diferença entre grau IP e grau IK?
O IP trata da entrada de poeira e água; o IK, da resistência a impactos mecânicos, de IK00 a IK10 (20 J). São independentes, e muitas aplicações industriais pedem os dois.
O grau IP vale para o conector desconectado?
Em geral, a classificação vale para o conjunto acoplado. A metade desacoplada pode precisar de tampa para manter a proteção; a ficha do produto informa.
Um conector IP68 resiste a qualquer produto químico?
Não. O IP não avalia resistência química. Isso depende dos materiais do corpo e das vedações. A Techno apresenta uma tabela própria de resistência a substâncias como amônia, gasolina, fertilizantes e água do mar.
Nesta série
- Techno do Brasil: tecnologia em conexões elétricas (guia da série)
- Conexões elétricas industriais e produtividade
- Como escolher conectores elétricos industriais
- IP66, IP68 e IP69K: o que significam
- Condensação e infiltração de água em conexões
- Conexões industriais e TPM: confiabilidade
- Lean e desperdícios na escolha de componentes
- Cases de conexões elétricas em ambientes hostis
- Custo total das conexões industriais (TCO)
Fontes
- IEC 60529: Degrees of protection provided by enclosures (IP Code): norma de referência do código IP.
- IEC 62262: Degrees of protection against external mechanical impacts (IK code): norma de referência do código IK.
- ISO 20653: Road vehicles, degrees of protection (IP code), origem da marcação IP69K.
- UL: ensaios de chama em plásticos (UL 94).
- Catálogo Geral Techno (CATGENIT102024), versão em português: graus IP e IK, materiais, faixa de temperatura e T-marking por série.
- Apresentação “Aplicações Complicadas e Hostis”, Techno do Brasil, conduzida por Mário Adinolfi em 06/11/2026 (Curso de Homologação de Instalações Techno do Brasil, Mundo SENAI, Marechal Cândido Rondon/PR): graus IP66/IP68/IP69, ensaios de materiais, resistência química, vedação co-moldada e cases.
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Esta série explica a tecnologia por trás das conexões e o efeito dela sobre o desperdício. Para os dados técnicos de cada item, consulte o catálogo e as fichas no site oficial da Techno do Brasil.
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