Mão segurando um par de conectores industriais plugue e soquete ao lado de um transmissor de campo em invólucro azul

O pedido de compra que diz pouco

Um conector especificado só por “IP68, 4 polos” tem metade dos seus modos de falha em aberto. A requisição não diz se o cabo tem 7 ou 11 milímetros de diâmetro, se o ponto é lavado com água quente, se o motor sai da base duas vezes por ano ou se, no meio do trajeto, existe uma emenda que ninguém desenhou. São exatamente essas variáveis que decidem se a vedação vai trabalhar como no ensaio. Quando a falha aparece, meses depois, ela está longe de quem fez a compra e já custa muito mais do que custaria no projeto.

A regra prática conhecida como 1-10-100 resume o problema: o que custa 1 para prevenir na especificação custa da ordem de 10 para corrigir na instalação e 100 quando falha em operação. Não é uma medição, é uma ordem de grandeza, mas descreve bem a vida de uma ligação elétrica.

No método que a Techno do Brasil apresentou no Mundo SENAI (detalhado no guia da série), o produto entra por último. Antes dele vêm três etapas de uma instalação correta e duradoura: analisar o ambiente externo, escolher e harmonizar os cabos e eliminar todos os pontos fracos. Num dos slides, a frase era direta: isso “não pode faltar no detalhamento do seu projeto elétrico”. Do ponto de vista de engenharia, é a sequência certa: ambiente, cabo, circuito e só então o conector. É qualidade na origem aplicada a um componente que costuma ser tratado como item de almoxarifado.

Etapa 1: ler o ambiente antes de olhar o produto

A primeira etapa do método da Techno lista sete agentes a observar no ponto de instalação: umidade, água, química, pressão, calor, variação de temperatura e condensação. Cada agente ataca um mecanismo diferente: água e pressão testam a vedação, o calor envelhece o elastômero, a química ataca o polímero e o ciclo térmico faz o conjunto “respirar”.

O critério que considero decisivo: descreva a pior condição real do ponto, e não a condição média. A máquina que trabalha seca 23 horas por dia e é lavada a quente na última hora vive, para o conector, a condição da lavagem.

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Etapa 2: o cabo define o conector, e não o contrário

A segunda etapa pede quatro dados do cabo: diâmetro externo, número de polos, seção (bitola) de cada polo e especificação técnica do cabo. Parece burocracia, mas é mecânica de vedação. O prensa-cabo veda por compressão de um elastômero sobre a capa do cabo. Com diâmetro abaixo da faixa, a compressão é insuficiente e a água encontra o caminho; acima, a vedação não fecha ou a capa é danificada. Há ainda o efeito do tempo: sob compressão e temperatura, a borracha sofre deformação permanente por compressão (compression set), perde a capacidade de voltar à forma e afrouxa. Uma vedação que já começa no limite inferior da compressão chega mais cedo ao ponto de vazar. O grau de proteção impresso na embalagem só vale para o conjunto montado dentro dessas faixas.

Por isso a palavra do método é harmonizar: cabo e conector precisam ser escolhidos juntos. A seção do condutor precisa caber no borne; o número de polos precisa atender potência e sinal; a capa precisa resistir ao mesmo ambiente que o conector.

EPR ou PU: o material da capa também é especificação

A apresentação dedicou um slide aos materiais de cabo. A comparação mostra que a capa precisa ser qualificada para o mesmo ambiente do conector:

Material da capaO que a Techno destacouOnde faz sentido
EPR (borracha de etileno-propileno)Maior flexibilidade mecânica e excelente desempenho em água e locais úmidosRedes subterrâneas, instalações industriais, áreas molhadas, painéis com curvas apertadas
PU à base de poliéter (TPU)Imune à hidrólise (degradação pela água), resiste a água doce e salgada, esgoto, fungos e ataque microbiano; compatível com óleos minerais, graxas, solventes e ácidos e bases fracosSaneamento, ambientes com óleo, áreas externas e agressivas

O material também mostrou a convenção de eletrodutos corrugados usada no mercado: PVC amarelo em paredes, PVC laranja em lajes e pisos e PEAD preto, com proteção UV, em áreas externas. Um vídeo citado na apresentação ajuda a visualizar a diferença de comportamento entre materiais de cabo.

Etapa 3: caçar os pontos fracos no desenho do circuito

Esta é a etapa que mais conversa com manutenção. A Techno propõe desenhar a planta baixa do circuito e, sobre ela, levantar:

  1. as distâncias em metros entre os componentes;
  2. todas as interrupções do cabo, identificadas e contadas;
  3. o tipo de cada interrupção: emenda reta, derivação em T, em Y, em H ou múltipla;
  4. as mudanças de bitola que acontecem nessas interrupções;
  5. as distâncias entre uma interrupção e outra.

A razão de contar é de confiabilidade. Num circuito, as interrupções de cabo funcionam como elementos em série: basta uma falhar para o circuito parar. A confiabilidade do conjunto é o produto das confiabilidades individuais, Rsistema = R1 × R2 × … × Rn. Com 20 conexões de 99% de confiabilidade anual cada, o circuito fica em 0,9920 ≈ 0,82: cerca de 18% de chance de pelo menos uma falha no ano, mesmo com componentes individualmente “bons”.

A conta mostra as duas alavancas: reduzir o número de interrupções e elevar a confiabilidade de cada uma. É isso, em linguagem de engenharia, o que o método chama de “eliminar todos os pontos fracos”. Na prática, a pergunta “quantas emendas existem no circuito de iluminação externa e em que ponto a bitola muda?” raramente tem resposta pronta, e sem esse número não há como gerenciar o risco. Cortar interrupções que não agregam valor é também o que o Lean faz com os desperdícios na escolha de componentes.

O desenho alimenta diretamente um FMEA de projeto: com as interrupções numeradas, cada uma recebe severidade, ocorrência e detecção, e fica claro quais merecem o conector de maior desempenho. Vale tratar também cada interface do próprio conector como modo de falha: anel de vedação separado, peça avulsa e etapa de montagem em campo têm, cada um, sua ocorrência. A vedação co-moldada que a Techno apresentou, com plástico e borracha injetados juntos e aderência químico-mecânica entre eles, elimina uma dessas interfaces e uma etapa de montagem. É redução de ocorrência por projeto, um poka-yoke na origem.

Case: o painel de máquina que trocou de conector

Conector retangular multipolar de 24 contatos montado em painel de máquina, com cabos e fiação internos
Conector retangular multipolar em painel de máquina, do tipo que o case substituiu por conectores circulares. Imagem: apresentação Techno.

Entre os cases da apresentação, o que melhor ilustra o método é o de painéis de máquinas com solução customizada. O cenário: painéis que usavam conectores retangulares multipolares, como o da foto. A necessidade: levar cabos de diferentes quantidades de vias até o painel, com vedação e possibilidade de desconexão. A solução mostrada foi substituir os retangulares por conectores circulares de painel, escolhidos conforme o cabo de cada ligação:

CaboConectores indicados no slide
12 viasTHB.406.A1E + THB.405.B2E
8 viasTHB.405.A8A / THB.405.B8A + 6000087LF
3 viasTHB.381.A3E / THB.381.B3E
3 viasTHB.384.A1A / THB.384.B1A + 6000347LA

O ponto técnico do case é a ordem do raciocínio. Partiu-se do número de vias de cada cabo, e daí saiu a combinação de conector e acessório: é a etapa 2 do método aplicada. Há também um ganho de mantenabilidade. Com a ligação desconectável no painel, a troca de um módulo deixa de exigir abertura do equipamento e refação de bornes, o que reduz o tempo médio de reparo (MTTR) por projeto, e não por esforço da equipe. E cada ligação passa a ter um código definido, o que facilita padronizar estoque e reposição. Outros exemplos estão reunidos nos cases de conexões elétricas em ambientes hostis.

Checklist de especificação de conectores industriais

Reúna estas informações antes de abrir o catálogo. A coluna da direita indica onde o dado aparece nas tabelas de produto do catálogo geral da Techno.

O que levantarPor que importaOnde conferir no catálogo
Ambiente: água, jato, imersão, poeira, químicaDefine o grau IP e os materiais de vedaçãoTabelas de especificações técnicas por série
Temperatura mínima, máxima e variaçãoAfeta vedações, condensação e vida útilFaixa de temperatura e T-marking da série
Corrente e tensão do circuitoLimita a série; o catálogo traz versões de 16 A a 41 A, em tensões de 400 V a 690 VColunas de corrente e tensão da tabela de produto
Número de polosPotência e sinal podem exigir polos diferentes, inclusive num mesmo conector híbridoCabeçalho de polos da tabela
Seção do condutor (mm²)Precisa caber no borne do conectorColuna de seção do cabo
Diâmetro externo do cabo (mm)Fora da faixa, o prensa-cabo não vedaColuna de diâmetro do cabo
Tipo de ligação: parafuso ou molaMola dispensa ferramenta; parafuso aceita seções maiores em algumas sériesColuna de tipo de conexão e prefixo do código
Função: emenda, derivação, plugue e soquete, painelMuda a série inteiraTipologias do catálogo (veja abaixo)
Ciclos de conexão e desconexãoEquipamento removido com frequência pede série preparada para issoLinha de ciclos de conexão/desconexão nas especificações
Risco de condensaçãoPode justificar versão com barreira anticondensação xDRY®Códigos indicados no guia de identificação
Interrupções do circuitoCada uma é um ponto fraco a eliminar ou especificarDesenho do circuito (etapa 3)

Emenda, plugue, painel ou caixa: qual tipologia escolher

O catálogo organiza a oferta por função. A pergunta que resolve a escolha é simples: o que acontece com o cabo neste ponto?

Existe ainda a opção de produto pré-cabeado, com o cabo já injetado e testado de fábrica; o catálogo cita comprimentos de 0,5 a 5 m e processamento de terminais sob medida. Para lotes repetitivos de máquinas, tirar a montagem do campo é uma forma direta de tirar variação do processo.

Regra prática. Equipamento que sai para manutenção pede ligação desconectável. Ligação permanente em espaço pequeno costuma ficar melhor com emenda reinspecionável do que com uma caixa de derivação. Vários pontos convergindo num lugar só pedem caixa.

Como ler o código do produto

O catálogo traz um guia de identificação que permite reconhecer características do item só pelo código. Segundo esse guia:

Os produtos disponíveis no Brasil estão organizados no site da Techno do Brasil nas categorias de emendas, desconectáveis, painéis e prensa-cabos. Para conhecer a empresa e o conjunto da tecnologia, veja o guia da Techno do Brasil e das conexões elétricas industriais.

Da escolha ao padrão de manutenção

Uma especificação bem feita só rende se virar padrão. Três hábitos simples fecham o ciclo:

E, antes de abrir ou trocar qualquer ligação, aplique o bloqueio e etiquetagem de energias. Se quiser comparar o custo de uma especificação mais cuidadosa com o custo de uma falha, a conta está em custo total das conexões industriais, e o efeito das conexões sobre a disponibilidade aparece em conexões elétricas industriais e produtividade.

Na minha avaliação, o diferencial da abordagem da Techno não está em um item do catálogo, e sim em tratar a ligação como sistema: ambiente, cabo, interrupções, conexão e validação, nessa ordem. Isso é um diferencial porque ataca as duas variáveis da conta de confiabilidade em série (quantas interfaces existem e quão robusta é cada uma) ainda na fase de projeto, que é onde a regra do 1-10-100 diz que a intervenção é mais barata. É o mesmo princípio da gestão inicial de equipamentos do TPM: prevenir a manutenção no desenho. Nenhum conector, por melhor que seja, corrige um circuito que nunca foi desenhado.

Perguntas frequentes

Posso escolher o conector só pelo grau IP?

Não. O IP diz como o conjunto se comporta diante de poeira e água, mas corrente, tensão, número de polos, seção do condutor e diâmetro do cabo precisam coincidir com a série. Com o cabo fora da faixa, a vedação deixa de funcionar como no ensaio.

Qual a diferença entre emenda e conector desconectável?

A emenda une cabos numa ligação permanente, que em algumas linhas pode ser reaberta para inspeção. O desconectável usa plugue e soquete e permite retirar o equipamento sem refazer a ligação.

Por que o diâmetro externo do cabo é tão importante?

Porque a vedação do prensa-cabo trabalha por compressão sobre a capa. Diâmetro menor deixa folga para a água; diâmetro maior impede o fechamento correto ou danifica a capa. Com o tempo, a deformação permanente da borracha reduz a compressão, e quem começa no limite vaza primeiro.

Quais são as três etapas para especificar um conector industrial?

Pelo método apresentado pela Techno do Brasil: analisar o ambiente externo, escolher e harmonizar os cabos e eliminar os pontos fracos do circuito, com planta baixa, distâncias e todas as interrupções identificadas.

O que é um produto pré-cabeado?

É um conector com o cabo já injetado e testado na fábrica. O catálogo da Techno cita comprimentos de 0,5 a 5 m e terminais processados sob medida, o que elimina a montagem em campo.

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Fontes

  1. Catálogo Geral Techno (CATGENIT102024), versão em português: tipologias de conexão, tabelas de produto e guia de identificação de códigos.
  2. Apresentação “Aplicações Complicadas e Hostis”, Techno do Brasil, conduzida por Mário Adinolfi em 06/11/2026 (Curso de Homologação de Instalações Techno do Brasil, Mundo SENAI, Marechal Cândido Rondon/PR): método de instalação em três etapas, materiais de cabo e case de painéis de máquinas.
  3. Techno do Brasil: produtos: linha disponível no Brasil.
  4. Vídeo sobre materiais de cabo citado na apresentação (YouTube).
  5. IEC 60529: Degrees of protection provided by enclosures (IP Code): norma de referência do código IP.

Guarde este endereço: o Manufatura Enxuta é a sua escola de manufatura enxuta. Volte sempre que precisar estudar, com artigo completo, mapa visual e fontes confiáveis. Siga uma das trilhas de estudo ou consulte o glossário A–Z.

Aprofunde a tecnologia na fonte

Esta série explica a tecnologia por trás das conexões e o efeito dela sobre o desperdício. Para os dados técnicos de cada item, consulte o catálogo e as fichas no site oficial da Techno do Brasil.

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Foto de Vagner Soares

Sobre o autor

Vagner Soares

Especialista em Lean Manufacturing e Gestão Comportamental

Mais de 20 anos de indústria automotiva e metalmecânica (GM e Dana), especialista em Lean Manufacturing desde 2006. Instrutor e mentor do SENAI no programa Brasil Mais Produtivo, com consultorias, treinamentos e auditorias em mais de 50 empresas, unindo qualidade, produtividade e desenvolvimento de pessoas.