
O que é a simulação de Monte Carlo
A simulação de Monte Carlo repete um cálculo milhares de vezes, sorteando a cada rodada valores aleatórios para as variáveis incertas, e mostra a distribuição dos resultados possíveis. Em vez de um prazo único, você obtém uma faixa e a probabilidade de cumprir cada data.
O método foi desenvolvido nos anos 1940 por Stanislaw Ulam, John von Neumann e Nicholas Metropolis, e o nome vem do cassino de Monte Carlo. No planejamento, ele resolve um problema simples: somar estimativas de tarefas incertas não dá o prazo mais provável do projeto.
Para contas em rede com durações fixas, use o PERT/CPM. A simulação entra quando cada duração é uma faixa e você quer saber o risco, não só o caminho crítico.
Mapa visual da simulação de Monte Carlo
O mapa mostra o fluxo (entradas, sorteio, soma, repetição) e a distribuição de prazos do exemplo, com P50, P80 e P90.

Como funciona: o passo a passo
- Modele o cálculo. Defina a saída que importa (prazo total, custo, lead time) e como ela depende das entradas.
- Descreva cada entrada incerta por uma distribuição. A mais usada no planejamento é a triangular, com três números: mínimo (a), mais provável (m) e máximo (b).
- Sorteie um valor de cada entrada e calcule a saída. Isso é uma rodada.
- Repita de 5.000 a 10.000 vezes e guarde todas as saídas.
- Leia a distribuição: média, desvio padrão e percentis.
Na distribuição triangular, a média e a variância têm fórmula fechada:
média = (a + m + b) ÷ 3 | variância = (a² + m² + b² − a·m − a·b − m·b) ÷ 18
Para sortear em planilha, gere U = ALEATÓRIO() entre 0 e 1 e use a inversa da triangular. Se U < (m − a) ÷ (b − a), a duração é a + √(U × (b − a) × (m − a)); caso contrário, é b − √((1 − U) × (b − a) × (b − m)).
Exemplo resolvido: três tarefas em sequência
Exemplo fictício: um projeto de instalação de uma máquina com três tarefas em série, estimadas em dias.
| Tarefa | Mínimo | Mais provável | Máximo | Média (a+m+b)÷3 |
|---|---|---|---|---|
| A. Fundação e base | 4 | 6 | 10 | 6,67 |
| B. Montagem mecânica | 3 | 5 | 9 | 5,67 |
| C. Elétrica e comissionamento | 5 | 8 | 14 | 9,00 |
| Total | 12 | 19 | 33 | 21,33 |
O plano tradicional soma os valores mais prováveis e promete 19 dias. Mas as três tarefas têm cauda longa à direita (o máximo está mais longe do provável que o mínimo), então a média já é 21,33 dias. A variância soma por tarefa: 1,56 + 1,56 + 3,50 ≈ 6,61, o que dá desvio padrão de cerca de 2,57 dias.
Uma rodada manual ilustra a mecânica: sorteando A = 6,0, B = 4,3 e C = 9,7, o projeto levaria 20,0 dias. Outra rodada deu 6,3 + 3,9 + 6,6 = 16,8 dias. Cada rodada é um futuro possível.
Rodando 10.000 vezes (semente 42, distribuição triangular em cada tarefa), o resultado foi:
| Medida | Resultado (dias) |
|---|---|
| Média | 21,3 |
| Desvio padrão | 2,6 |
| P50 (mediana) | 21,2 |
| P80 | 23,5 |
| P90 | 24,7 |
| P95 | 25,7 |
| Chance de terminar em até 19 dias | cerca de 19% |
| Chance de terminar em até 24 dias | cerca de 84% |
Em outra semente os números mudam na primeira casa decimal, mas a conclusão se mantém: o prazo de 19 dias tem só uma chance em cinco de ser cumprido. Para 80% de confiança, prometa 24 dias, e para 90%, 25 dias.
Como ler P50, P80 e P90
O percentil Pxx é o prazo que o projeto cumpre em xx% das rodadas. O P50 é o prazo "meio a meio": metade das vezes estoura. O P80 costuma servir de compromisso com o cliente, e o P90 de prazo de contrato com multa. A diferença entre o P80 e o plano (23,5 − 19 = 4,5 dias) é a reserva de prazo que o risco justifica; ela fica em um buffer explícito, não escondida em cada tarefa.
O histograma das saídas mostra a forma do risco. Se quiser rever como montá-lo, veja histograma: como construir e interpretar.
Quando usar e quando não usar
- Usar: projetos com tarefas em série ou em paralelo e estimativas incertas; custo total com preços variáveis; demanda incerta; dimensionamento de estoque de segurança.
- Combinar com a rede: em redes com caminhos paralelos, o caminho crítico muda de rodada para rodada. Simular a rede inteira dá a chance de cada atividade ser crítica, o que o PERT/CPM determinístico não mostra.
- Demanda: use o erro da previsão de demanda como distribuição de entrada e simule o nível de serviço.
- Investimento: sorteie fluxos de caixa e taxa para ver a distribuição do VPL, no lugar de um valor só (VPL, TIR e payback).
- Filas: quando as fórmulas fechadas da teoria das filas não servem, a simulação resolve.
- Não usar: quando você não tem nenhuma base para estimar faixas. Nesse caso, comece coletando dados.
Ferramentas
Dá para rodar no Excel com ALEATÓRIO() e uma tabela de dados, em Python (biblioteca padrão já tem random.triangular) ou em suplementos próprios de simulação. A ferramenta importa menos que a qualidade das faixas de entrada.
Erros comuns e limitações
- Faixas chutadas. O resultado só é tão bom quanto as entradas: "lixo entra, lixo sai". Pergunte aos executores e use o histórico de projetos anteriores.
- Máximo otimista demais. Quem estima tende a subestimar a cauda. Peça o pior caso realista e compare com projetos passados.
- Ignorar a correlação. Se duas tarefas atrasam pelo mesmo motivo (mesma equipe, mesmo fornecedor), sortear de forma independente subestima o risco.
- Poucas rodadas. Com 100 rodadas, os percentis oscilam. Use milhares.
- Confundir média com compromisso. A média (21,3) tem cerca de 50% de chance de ser cumprida, não 100%.
- Precisão falsa. Informe P80 = 23,5 dias como "cerca de 24 dias", sem casas decimais enganosas.
Perguntas frequentes
O que é a simulação de Monte Carlo?
É um método que repete um cálculo milhares de vezes com valores sorteados nas entradas incertas, para obter a distribuição dos resultados.
Quantas rodadas devo usar?
De 5.000 a 10.000 é suficiente para a maioria dos planejamentos. Com poucas centenas, os percentis variam demais de uma execução para outra.
Qual a diferença entre PERT e Monte Carlo?
O PERT usa uma fórmula de média e variância por atividade e supõe uma soma aproximadamente normal. O Monte Carlo sorteia as durações e mede a distribuição real, inclusive em redes com caminhos paralelos.
O que significa P80?
É o valor que o resultado não ultrapassa em 80% das rodadas. No exemplo, o projeto termina em até 23,5 dias com 80% de confiança.
Qual distribuição usar para a duração de tarefas?
A triangular (mínimo, mais provável, máximo) é a mais simples e basta para começar. Com dados históricos suficientes, ajuste uma distribuição aos dados.
Preciso de software especial?
Não. Uma planilha com ALEATÓRIO() ou um script curto em Python já executa a simulação do exemplo.
Fontes
- METROPOLIS, N.; ULAM, S. The Monte Carlo Method. Journal of the American Statistical Association, v. 44, 1949.
- VOSE, D. Risk Analysis: A Quantitative Guide. Wiley.
- HUBBARD, D. W. How to Measure Anything. Wiley.
- PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. Guia PMBOK. PMI.
Para estudar mais: fontes e links confiáveis
- INFORMS: What is Operations Research? (em inglês)
- INFORMS: Institute for Operations Research and the Management Sciences (em inglês)
- Wikipédia: Gerenciamento de risco
Guarde este endereço: o Manufatura Enxuta é a sua escola de manufatura enxuta. Volte sempre que precisar estudar, com artigo completo, mapa visual e fontes confiáveis. Siga uma das trilhas de estudo ou consulte o glossário A–Z.
Quer menos quebras e mais disponibilidade?
Baixe o e-book gratuito sobre indicadores de desempenho e acompanhe as perdas da manutenção.
Baixar e-book
