
O que é a curva da banheira
A curva da banheira mostra como a taxa de falha de um equipamento muda ao longo da vida: alta no começo, baixa e estável no meio, e crescente no fim. O nome vem do formato do gráfico, com três fases bem distintas.
Cada fase tem causa de falha própria e, por isso, exige uma ação de manutenção diferente. A distribuição de Weibull é a ferramenta que permite descrever as três fases com um único parâmetro de forma, o beta (β).
Mapa visual da curva da banheira
O mapa resume as 3 fases, o valor de β em cada uma e a ação de manutenção correspondente, com o exemplo calculado neste artigo.

As 3 fases da curva
| Fase | Taxa de falha | β de Weibull | Causas típicas | Ação |
|---|---|---|---|---|
| 1. Mortalidade infantil | Alta e decrescente | β < 1 | Erro de montagem, defeito de fabricação, instalação ruim, ajuste inicial | Inspeção de recebimento, comissionamento, teste de rodagem, treinamento |
| 2. Vida útil | Baixa e constante | β ≈ 1 | Falhas aleatórias: sobrecarga, contaminação, erro de operação | Lubrificação, limpeza, inspeção, manutenção autônoma |
| 3. Desgaste | Crescente | β > 1 | Fadiga, abrasão, corrosão, envelhecimento | Manutenção preditiva, troca por idade ou condição, reforma |
Só na fase 2 a taxa de falha é constante. Nela vale o modelo exponencial, em que o MTBF é o inverso da taxa de falha (λ = 1 ÷ MTBF). Fora dela, usar o MTBF como se a taxa fosse constante dá previsões erradas.
Weibull: taxa de falha e confiabilidade
Com dois parâmetros, a Weibull descreve qualquer das três fases:
R(t) = e−(t/η)β h(t) = (β ÷ η) × (t ÷ η)β−1
- R(t): confiabilidade, a probabilidade de funcionar sem falha até o tempo t.
- h(t): taxa de falha instantânea (falhas por hora entre os que ainda funcionam).
- β (forma): menor que 1, taxa decrescente; igual a 1, constante; maior que 1, crescente.
- η (vida característica): tempo em que 63,2% dos itens já falharam. Nesse ponto R = e−1 = 36,8%, qualquer que seja o β.
Com β = 1 a Weibull vira a exponencial e η passa a ser o MTBF. Outras duas medidas úteis: a vida B10, tempo até 10% de falhas, calculada por η × (−ln 0,90)1/β; e o tempo médio até a falha, η × Γ(1 + 1/β), em que Γ é a função gama.
Exemplo resolvido: rolamento de bomba
Exemplo fictício. Os dados de falha de um rolamento de bomba, ajustados em uma Weibull, resultaram em β = 2,0 e η = 1.200 horas. Como β > 1, o rolamento está em desgaste.
| Tempo t (h) | R(t) = e−(t/1200)² | h(t) (falhas por 1.000 h) |
|---|---|---|
| 100 | 99,31% | 0,14 |
| 300 | 93,94% | 0,42 |
| 500 | 84,06% | 0,69 |
| 800 | 64,12% | 1,11 |
| 1.200 | 36,79% | 1,67 |
Cálculos principais:
- R(500): e−(500÷1200)² = e−0,1736 = 84,06%.
- Vida B10: 1.200 × (−ln 0,90)1/2 = 1.200 × 0,3246 ≈ 390 horas. É o prazo em que 10% dos rolamentos já terão falhado.
- Tempo médio até a falha: 1.200 × Γ(1,5) = 1.200 × 0,8862 ≈ 1.063 horas.
- Probabilidade condicional: o rolamento já rodou 500 h sem falha. Chance de chegar a 600 h: R(600) ÷ R(500) = 77,88% ÷ 84,06% = 92,6%.
Se alguém tratasse esse rolamento como exponencial com MTBF de 1.063 h, preveria R(500) = e−500÷1063 = 62,5%. O valor real é 84,06%. A taxa de falha cresce com o uso, então o modelo de taxa constante erra tanto para cima quanto para baixo.
Que ação tomar em cada fase
- Fase 1: confirme a instalação (alinhamento, torque, folgas) e faça um período de rodagem antes de liberar a produção. Se as falhas iniciais se repetem, investigue o fornecedor e a montagem com os 5 Porquês.
- Fase 2: o objetivo é não encurtar a vida útil. Lubrificação correta, limpeza e inspeção pelo operador evitam as falhas aleatórias. Troca preventiva aqui é desperdício, porque a peça nova reinicia a fase 1.
- Fase 3: acompanhe vibração, temperatura e ruído, e programe a troca antes do ponto em que a taxa dispara. A TPM trata esse acompanhamento como rotina.
Para priorizar quais ativos analisar, use um Pareto de horas de parada. O FMEA ajuda a listar os modos de falha de cada fase, e a disponibilidade medida entra no OEE.
Como estimar β e η
- Registre o tempo de operação até a falha de cada item (horas, ciclos ou km), incluindo os que ainda não falharam como dados censurados.
- Ordene os tempos e calcule a probabilidade acumulada de falha F para cada um (por exemplo, pelos postos medianos de Benard).
- Plote ln(t) contra ln(−ln(1 − F)). Em um papel de Weibull, os pontos formam uma reta.
- O coeficiente angular da reta é o β. O η é o tempo em que a reta cruza F = 63,2%.
Planilhas e softwares estatísticos fazem o ajuste. A regra prática: com poucas falhas registradas (menos de uns 6 a 10), o β estimado tem muita incerteza, e a decisão deve ser tomada com cautela.
Erros comuns e limitações
- Usar MTBF como prazo de troca. Com β > 1, trocar no MTBF significa aceitar uma grande parcela de falhas antes (no exemplo, 54% dos rolamentos). Use a vida B10 ou a taxa de falha aceitável.
- Misturar modos de falha. Falhas por fadiga e por contaminação no mesmo conjunto de dados produzem um β sem sentido. Separe por modo.
- Ignorar os itens que não falharam. Eles carregam informação e precisam entrar como dados censurados.
- Supor que todo item segue a banheira. Estudos clássicos de manutenção centrada em confiabilidade (Nowlan e Heap) mostraram que a maioria dos componentes complexos não tem fase de desgaste definida, e que a mortalidade infantil é comum.
- Trocar peça sem necessidade. A intervenção também é fonte de falhas na fase 1.
Perguntas frequentes
O que é a curva da banheira na confiabilidade?
É o gráfico da taxa de falha ao longo da vida: alta no início (mortalidade infantil), baixa e constante na vida útil e crescente no desgaste.
O que significa o parâmetro β da Weibull?
É o parâmetro de forma. β menor que 1 indica taxa de falha decrescente, igual a 1 indica constante e maior que 1 indica crescente.
O que é a vida característica η?
É o tempo em que 63,2% dos itens falharam. Nesse ponto a confiabilidade é 36,8%, para qualquer β.
Quando posso usar o MTBF?
Quando a taxa de falha é aproximadamente constante (β próximo de 1), ou seja, na fase de vida útil. Fora dela, o MTBF mascara a tendência.
Como reduzir a mortalidade infantil?
Com inspeção de recebimento, comissionamento padronizado, período de rodagem e treinamento de quem monta e opera o equipamento.
Quantas falhas preciso para ajustar uma Weibull?
Não há número exato, mas com menos de 6 a 10 falhas a estimativa fica muito incerta. Quanto mais dados, mais confiável o β.
Fontes
- WEIBULL, W. A statistical distribution function of wide applicability. Journal of Applied Mechanics, v. 18, 1951.
- NOWLAN, F. S.; HEAP, H. F. Reliability-Centered Maintenance. United Airlines / U.S. Department of Defense, 1978.
- ABERNETHY, R. B. The New Weibull Handbook. 5. ed. 2004.
- KARDEC, A.; NASCIF, J. Manutenção: Função Estratégica. Rio de Janeiro: Qualitymark.
Para estudar mais: fontes e links confiáveis
- NIST e-Handbook: Assessing Product Reliability (em inglês)
- ABRAMAN: Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos
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