Gargalo de uma linha de usinagem com peças em espera diante da máquina, enquanto as estações seguintes trabalham com folga

O que é a contabilidade de ganho

A contabilidade de ganho (throughput accounting) é o método de decisão derivado da Teoria das Restrições que mede o resultado da fábrica por três números: ganho (T), estoque (I) e despesa operacional (OE). Em vez de ratear custos por produto, ela pergunta quanto dinheiro cada produto gera por minuto do recurso que limita a produção.

Isso muda decisões comuns: qual produto priorizar, qual pedido aceitar e quanto cobrar. Um produto com ótima margem no custeio tradicional pode ser o pior uso do gargalo. O método complementa a teoria das restrições (TOC), que mostra onde está o limite; a contabilidade de ganho diz quanto ele vale em dinheiro.

Mapa visual da contabilidade de ganho

O mapa resume as três medidas, os indicadores derivados e o exemplo de dois produtos disputando o mesmo gargalo.

CONTABILIDADE DE GANHO
Mapa visual 280: Contabilidade de ganho (throughput): decidir pelo gargalo. Clique no mapa para ver em tamanho real.Baixar o mapa em PNG

As três medidas e os indicadores

T = Receita − CTV  |  Lucro líquido = T − OE  |  ROI = (T − OE) ÷ I

Dois indicadores completam o painel: produtividade = T ÷ OE (quanto ganho cada real de despesa produz) e giro = T ÷ I. Para decidir entre produtos, o número-chave é o ganho por minuto do gargalo:

T/min do gargalo = (Preço − CTV) ÷ minutos no recurso restritivo

Na versão clássica, a mão de obra direta entra em OE, porque não varia com cada unidade vendida. Se a empresa paga por peça produzida, esse valor é variável e entra no CTV. Defina a regra antes de calcular e aplique igual a todos os produtos.

Anúncio · Publicidade

Exemplo: dois produtos, um gargalo

Exemplo fictício. Uma célula de usinagem tem o centro de usinagem como gargalo, com 2.400 minutos por semana disponíveis. A demanda semanal é de 200 unidades do produto A e 300 do produto B. A despesa operacional da fábrica é de R$ 12.000 por semana e o estoque é de R$ 150.000.

DadoProduto AProduto B
Preço de vendaR$ 100R$ 70
Material (CTV)R$ 30R$ 20
Custo de conversão rateado (custeio por absorção)R$ 40R$ 35
Margem no custeio por absorçãoR$ 30 (30,0%)R$ 15 (21,4%)
Ganho por unidade (T)R$ 70R$ 50
Minutos no gargalo105
T por minuto do gargaloR$ 7,00R$ 10,00

Pela margem do custeio tradicional, o produto A parece melhor (30% contra 21,4%). Pelo ganho por minuto do gargalo, o B vale R$ 10 contra R$ 7. Como a demanda total (200 × 10 + 300 × 5 = 3.500 min) excede os 2.400 min, é preciso escolher:

PlanoMix semanalMinutos usadosGanho TT − OE
Pela margem (A primeiro)200 A + 80 B2.000 + 400 = 2.40014.000 + 4.000 = R$ 18.000R$ 6.000
Pelo T/min (B primeiro)300 B + 90 A1.500 + 900 = 2.40015.000 + 6.300 = R$ 21.300R$ 9.300

Priorizar pelo gargalo acrescenta R$ 3.300 por semana ao ganho sem mudar a despesa operacional. Com o mesmo estoque de R$ 150.000, o retorno semanal sobre o investimento sobe de 4,0% (6.000 ÷ 150.000) para 6,2% (9.300 ÷ 150.000), e a produtividade T ÷ OE vai de 1,50 para 1,78.

Aplicando em decisões de pedido e preço

O recurso restritivo é o que tem preço. Cada minuto ocupado por um pedido é um minuto que deixa de ser usado pelo melhor produto que ainda não foi atendido; no exemplo, o A, a R$ 7,00 por minuto.

Para programar a fábrica de acordo com essa lógica, veja o tambor-pulmão-corda; para o custo do próprio recurso, a hora-máquina.

Anúncio · Publicidade

Contabilidade de ganho e custeio tradicional

AspectoCusteio por absorçãoContabilidade de ganho
FocoCusto unitário completoDinheiro gerado pelo sistema
Mão de obra e overheadRateados ao produtoTratados como despesa operacional do período
EstoqueAbsorve custos; produzir mais eleva o lucro contábilValorizado só pelo material; produzir sem vender não ajuda
Critério de escolhaMargem por unidadeT por minuto do gargalo
Melhor usoBalanço, impostos, custo de referênciaMix, preço marginal, priorização de melhorias

Os métodos não competem; respondem a perguntas diferentes. O custeio por absorção é exigido para fins contábeis e fiscais. Já a margem de contribuição é a ponte mais próxima: ela também separa custos variáveis, mas divide pela unidade e não pelo recurso escasso. Para ver como empresas lean aplicam isso por fluxo, consulte a contabilidade lean.

Como implantar em 5 passos

  1. Identifique o gargalo com dados de carga e fila, não por opinião.
  2. Defina o CTV de cada produto e documente o que entra (material, comissão, frete) e o que não entra.
  3. Calcule T e T/min de todos os produtos que passam pelo gargalo e ordene-os.
  4. Monte o mix até esgotar os minutos disponíveis, respeitando demanda e contratos.
  5. Acompanhe T, I e OE por semana ou mês e reavalie o gargalo quando o mix ou a capacidade mudarem.

Erros comuns e limitações

Perguntas frequentes

O que é throughput accounting?

É um método gerencial da Teoria das Restrições que avalia decisões pelo ganho (T), estoque (I) e despesa operacional (OE), com foco no recurso restritivo.

Qual a fórmula do ganho?

T = receita de vendas − custos totalmente variáveis. O lucro líquido é T − OE e o ROI é (T − OE) ÷ I.

Como calcular o ganho por minuto do gargalo?

Divida o ganho por unidade (preço − CTV) pelos minutos que a unidade ocupa no recurso restritivo. No exemplo: 70 ÷ 10 = R$ 7,00 para o A e 50 ÷ 5 = R$ 10,00 para o B.

A mão de obra direta entra no custo variável?

Na versão clássica, não: é despesa operacional. Só entra no CTV quando o pagamento varia diretamente com cada unidade vendida, como a remuneração por peça.

Qual a diferença para a margem de contribuição?

Ambas separam o custo variável, mas a margem de contribuição é medida por unidade, enquanto o ganho por minuto é medido pelo recurso escasso. Com gargalo, essa diferença pode inverter a ordem de prioridade.

Preciso abandonar o custeio por absorção?

Não. Ele continua necessário para balanço e impostos; a contabilidade de ganho serve para decisões de mix, preço e investimento.

Anúncio · Publicidade

Fontes

  1. GOLDRATT, E. M.; COX, J. The Goal: A Process of Ongoing Improvement. North River Press, 1984.
  2. GOLDRATT, E. M.; FOX, R. E. The Race. North River Press, 1986.
  3. CORBETT, T. Throughput Accounting. North River Press, 1998.
  4. NOREEN, E.; SMITH, D.; MACKEY, J. T. The Theory of Constraints and Its Implications for Management Accounting. North River Press, 1995.

Para estudar mais: fontes e links confiáveis

Guarde este endereço: o Manufatura Enxuta é a sua escola de manufatura enxuta. Volte sempre que precisar estudar, com artigo completo, mapa visual e fontes confiáveis. Siga uma das trilhas de estudo ou consulte o glossário A–Z.

Quer menos quebras e mais disponibilidade?

Baixe o e-book gratuito sobre indicadores de desempenho e acompanhe as perdas da manutenção.

Baixar e-book
Foto de Vagner Soares

Sobre o autor

Vagner Soares

Especialista em Lean Manufacturing e Gestão Comportamental

Mais de 20 anos de indústria automotiva e metalmecânica (GM e Dana), especialista em Lean Manufacturing desde 2006. Instrutor e mentor do SENAI no programa Brasil Mais Produtivo, com consultorias, treinamentos e auditorias em mais de 50 empresas, unindo qualidade, produtividade e desenvolvimento de pessoas.